A mesma parede foi refeita algumas centenas de vezes desde o século XVIII, e é considerada a mesma parede.
Ela absorve a maresia, incha, solta em placa, e alguém sobe de novo com o balde. A indústria da construção passou os últimos setenta anos tentando resolver esse problema. Resolveu. Existe hoje tinta acrílica com quinze anos de garantia, argamassa impermeável, revestimento que não pede nada de ninguém. A parede parou de descascar, e junto parou o gesto que a mantinha.
Durar é uma propriedade do material — mede-se em anos até a falha. Permanecer é uma propriedade da relação, e mede-se em quantas vezes alguém voltou. A cal dura pouco e permanece muito. O acrílico dura muito e não permanece nada, porque ninguém volta para cuidar dele, e quando ele finalmente falha, falha inteiro e de uma vez, e a resposta não é um balde: é uma reforma.
Filmamos uma parede só, num dia só.
Das nove da manhã às cinco da tarde. A luz atravessa a fachada de leste para oeste e revela três coisas em sequência que a luz difusa esconde: a espessura de cada demão sobreposta, a marca da trincha de quem passou a última, e a linha onde a cal encontra a pedra do embasamento e para — porque na pedra ela não pega, e nunca pegou, e ninguém nunca tentou obrigar.
O filme não tem locução, não tem trilha e não tem nome de marca. Tem o som da trincha na parede, que é o som de alguém decidindo voltar.